No calendário oficial do Brasil, o dia 21 de abril é dedicado à memória de Joaquim José da Silva Xavier, transformado em herói nacional e símbolo da luta pela liberdade. Mas, muito antes da Inconfidência Mineira ganhar espaço nos livros didáticos, Pernambuco já ensaiava e até defendia ideias republicanas em pleno período colonial.
A história pouco contada fora do Nordeste revela que, ainda em 1710, no contexto da Guerra dos Mascates, Bernardo Vieira de Melo teria defendido, na Câmara de Olinda, a adoção de um modelo de governo inspirado em repúblicas europeias. Para muitos historiadores e para a tradição política pernambucana, ali estava um dos primeiros registros de pensamento republicano em território brasileiro.
Décadas depois, Minas Gerais protagonizaria um movimento que entraria para a história como símbolo nacional. A Inconfidência Mineira, porém, não chegou a se concretizar. Descoberta antes de ganhar as ruas, terminou com repressão e com a execução de Tiradentes, em 1792 fato que ajudaria a consolidar sua imagem como mártir.
Enquanto isso, Pernambuco não ficaria apenas no campo das ideias.
Quando a República virou prática
Em 1817, o estado protagonizou um dos episódios mais ousados da história brasileira: a Revolução Pernambucana. Diferente de outras tentativas, o movimento rompeu com a Coroa portuguesa, derrubou o governo colonial e instaurou uma república independente, ainda que por um curto período.
Durante semanas, Pernambuco viveu, na prática, aquilo que outros movimentos apenas sonharam: autonomia política, governo republicano e ruptura com o domínio português.
Era mais do que um ideal. Era um experimento real de país.
Por que a história nacional seguiu outro caminho?
A resposta passa pela forma como o Brasil construiu sua memória política. Após a Proclamação da República no Brasil, o novo regime precisava de símbolos fortes, simples e fáceis de espalhar. Tiradentes, executado pela Coroa, se encaixava perfeitamente como mártir da liberdade.
Já Pernambuco apresentava uma narrativa mais complexa: ideias republicanas desde 1710, revolução concreta em 1817 e caráter regional.
Difícil de resumir em um único nome e, por isso, menos explorada nacionalmente.
Entre o herói e a história
O resultado é um contraste evidente: Tiradentes virou herói nacional e feriado, Pernambuco se tornou berço de ideias e ações republicanas pouco lembradas fora do Nordeste.
Um passado que ainda ecoa
Em Olinda e em Pernambuco, essa memória nunca foi apagada. A defesa da República antes mesmo de se tornar pauta nacional e a experiência revolucionária de 1817 seguem como marcos de identidade e orgulho.
Ao revisitar esses episódios, o país se depara com uma provocação inevitável: e se a independência do Brasil não começou apenas com mártires, mas com ideias e ações que nasceram no Nordeste?
Entre o símbolo celebrado e a história menos contada, Pernambuco continua lembrando ao Brasil que, muito antes de Tiradentes, já se falava e se lutava por República em solo pernambucano.
_Essa reportagem não trata de diminuir a importância de Tiradentes, mas de ampliar o olhar sobre a própria história do Brasil._
Alexandre Santos
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